sexta-feira, 30 de março de 2012

Gehenna


"... Fale-nos das hostes secretas do mal, Ó Címon..."
"Seus nomes não podem em voz alta ser pronunciados, para que não profanem lábios mortais, pois emergiam das profundezas das trevas, atacaram os céus, mas foram repelidos pela ira dos anjos..." Diálogos de Quios.

Edward como todo Einar, não apreciava diálogos, gostava de ação. Abandonou a luta nas cidades menores da Irlanda e avançou para Londres. Os quarenta dias no deserto podiam esperar.
Em seu quinto ano na capital do Reino Unido sentia-se cansado e desanimado, dois sentimentos nunca antes percebidos e pela primeira vez na sua mente surgiu a palavra parar.

Edward percorria Trafalgar Square no distrito de West End sempre a pé. Evitava a visão espiritual, pois a miríade de demônios o lembrava da luta que havia desistido. Além do mais, há muito tempo não era desafiado por um demônio, eles o evitavam, sentia-se seguro. Corria ao encontro de sua amada, Irina, uma bela ucraniana, radicada na Inglaterra.

Conheceu Irina em uma área de prostituição em que Edwards empreendia uma luta com mafiosos do lugar contra a prostituição e tráfico de drogas.

Ela mostrara-se aberta a ouvi-lo e rapidamente uniu-se a ele em sua luta. A intenção dela sempre fora seduzi-lo, ela não sabia por que, mas sabia que isso de alguma forma o prejudicava pois era a ordem dos seus donos. Antes disso apaixonou-se, esqueceu-se da ordem e fez tudo por amor.

Apaixonou-se pelo amor e dedicação que aquele homem dedicava aqueles que nada mereciam.  O carinho e a delicadeza com que ouvia as queixas e discussões dos casais. A firmeza e a coragem com que enfrentava os soldados da máfia russa e cobrava os policiais corruptos dos guetos londrinos.  Não tentava aproveitar-se dela, não havia malícia em seus olhos ou maldade em seu coração, apenas uma vontade imensa em fazê-la conhecer o seu Deus.

Edwards cansou, Irina deu carinho e atenção, o teve em seus braços quando ele chorou, o teve em sua cama quando ele desistiu, o teve em seu coração quando ele ficou cego.

Derrubou o maior guerreiro da luz na Europa e não sabia. Demônios e homens tentaram. Dinheiro e poder sequer chegaram perto.

“Virgulino Ferreira, o Lampião
Bandoleiro das selvas nordestinas
Sem temer a perigo nem ruínas
Foi o rei do cangaço no sertão
Mas um dia sentiu no coração
O feitiço atrativo do amor
A mulata da terra do condor
Dominava uma fera perigosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor”.

Azazel se aproximou por último cautelosamente, o homem estava cercado e sendo devorado espiritualmente por dezenas de demônios menores. Desferiu um único golpe.

Edwards atravessou a rua sonhando com o aconchego dos braços de sua amada. Nada mais sentia em seu espírito, não ouvia mais os anjos e não queria mais lutar. Selou assim seu destino. Sua amada e suas carícias foram seus últimos pensamentos antes de ser atropelado por um playboy em alta velocidade.

Seus primeiros pensamentos no inferno foram de arrependimento. Tarde demais.

domingo, 25 de março de 2012

Déjà vu


Abner estava assustado. Não era a primeira vez que aquele homem entrada em seu bar. E toda vez coisas estranhas e fora do seu controle aconteciam.
O bar de Abner está localizado no limite da cidade, sendo a primeira construção para quem vem do deserto. Ninguém vem do deserto.
Abner é um judeu diferente. O bar foi construído com dois objetivos: sair da presença incomoda de sua esposa e ter algo com pouca ou nenhuma mudança.
O lucro é ter paz. Quem procura aquele bar, o procura por bebida e só. Isolado, sem atrativos. Você não encontra amigos lá, apenas bebuns e prostitutas.
Ah, as prostitutas.
Esse era o primeiro dos problemas de Abner. Toda vez que o homem chegava, Abner precisava de novas prostitutas. Da última vez, quase teve que fechar o bar por seis meses.
Não tinha fregueses e nem prostitutas. Os bêbados deixaram de ir lá e as prostitutas, essas nunca mais viu.
Cada vez que o homem chegava Abner deixava um hábito que gostava.
Abner bebia, deixou de beber, Abner comia exageradamente, virou vegetariano, prostituição, drogas, roubo no troco, tudo mudou.
Abner passou a viver insatisfeito, mas não conseguia voltar a vida anterior.
Montou uma loja para a mulher trabalhar, a loja prosperou. Abriu uma padaria, um açougue e um minimercado.
Mas algo o compelia a manter o bar. Já não gostava dos bebuns, nem das prostitutas, mas algo o mantinha preso àquele lugar.
Quando o homem chegou Abner já sabia o que fazer. Um copo d’água mineral, para começar e outros até que ficasse satisfeito.
Desta vez não se aproximaria, não o tocaria, não falaria com ele, não aguentava mais mudanças em sua vida.
Olhava para o homem quando tudo aconteceu. Quando se deu conta, viu dois homens no chão e dois gigantes diante do homem.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Gênesis

Logo que o estranho entrou no recinto, Dennis sabia que era o seu destino chegando. Ao contrário de Yamamoto, ele entendeu que era o começo.
Em poucos segundos ele parou de pensar e reagiu. Avançou em direção aos homens que se dirigiam ao estranho, surpreendendo-se com a chegada quase simultânea de Yamamoto.
Lembrando-se o seu treinamento militar atacou o homem a sua direita deixando o outro para Yamamoto. Sabia o desfecho, eles não tinham chance. Mas não teriam chegado a tempo se os homens não tivessem um momento de vacilo. Pareciam apavorados.
Assim que os dois homens caíram, Dennis abaixou-se ficando em posição de ataque, para não ficar na frente de Yamamoto e dar-lhe ampla visão da sala. Um protegia ao curto alcance e o outro antevia ataques de longe. Fora algumas mulheres que circulavam e agora pareciam apavoradas, os homens do recinto estavam por demais alcoolizados para esboçar qualquer reação violenta, mesmo que quisessem era uma luta perdida.
Dennis olhou para o estranho e aprumou-se, relaxando imediatamente, curvou-se em uma atitude de reverência.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Estranho e o Deserto

O Estranho
Jonas já passara por aquilo antes, 40 dias no deserto do Saara, lugar impiedoso.
El-Aaiún estava a poucos metros e apesar da dor e sofrimento ele sabia que faria aquilo outras vezes.
Entrou no salão e esperou os olhos acostumarem com a penumbra, a primeira coisa que conseguiu discernir foram dois bêbados sentados no bar que o ignoraram e continuaram a falar.
Algumas mulheres circulavam e não o notaram, ele não tinha atrativos, sujo, maltrapilho e fedorento. Talvez pudéssemos classificá-lo como feio até.
Outras mesas estavam escassamente preenchidas por homens e suas vidas com álcool e prostituição, tentando atenuar a dor que sentiam em suas almas.
Ao fundo, impossível de se deixar de notar dois homens sentados frente a frente se entreolharam e o fitaram deixando claro que o aguardavam.
O barman o reconheceu, deu as costas, e quando virou-se novamente, tinha um copo e uma garrafa d'água. Estendeu vagarosamente o copo já cheio ao estranho e como se temesse algo e se afastou.
O silêncio tomou conta do ambiente preenchendo cada espaço da sala como que impedindo que o som pudesse se revelar. Era possível notar que todos sentiam que algo tinha mudado, o lugar antes gelado e estéril, agora parecia iluminado e preenchido de uma alegria invisível. Era impossível ficar passível ante aquele sentimento que invadia os sentidos e a melhor palavra para defini-lo era... paz.
Como um incômodo barulho que nos acorda no melhor do sono, os bêbados como que tomados por algo maior que eles iniciaram um caminhar agressivo na direção do estranho.
Este olhava fito para o copo d'água a sua frente balbuciando em uma língua estranha uma longa oração.
Antes do término da oração, os dois homens eram apenas corpos estendidos no chão, ainda orando levantou os olhos aos céus como se pudesse ver o próprio Deus, suspirou e sorveu vagarosamente o líquido do copo.

O Guerreiro
Yamamoto tinha pouco mais de 1,90m e era o estereótipo de lutador, nariz quebrado, rosto marcado e olhos cansados, o tempo tinha sido cruel com aquela pele. Foram 80 longos anos lutando, sendo 40 como defensor dos Shimizu, ou água pura, como costuma chamar os homens que protegia.
Lutara contra os americanos, perdeu, lutara contra os vietnamitas, perdeu. Entretanto, nunca perdera uma luta individual em sua vida. Nascido em Okinawa, aprendeu Karatê ao mesmo tempo em que dava seus primeiros passos. Anos mais tarde foi aluno de Kiuzo Mifune, tendo recebido de Mifune apenas um elogio. Único capaz de me derrotar.
Agora, sentado em uma mesa de bar, frente a frente com seu substituto, ainda tinha dúvidas se deveria parar, a juventude do homem igualmente grande dava-lhe incerteza do cumprimento do dever que se avizinhava.
Sempre que podia, buscava lembrar os motivos para parar:
Dores nas juntas, visão e força que fraquejavam as vezes. Nessas horas se sustentava na coragem.
Sabia que havia um lugar aprazível lhe esperando, bem como todas as delícias de um rei. Bastava esperar o homem que chegaria em poucos minutos e tudo terminaria.

O Maestro
Dennis completara seu treinamento e estava ansioso para trabalhar. Seu tempo nas principais tropas de elite mundiais o habilitavam como o único para aquela missão.
Eram 130 kg, distribuídos em dois metros de músculos. Mas não era isso que o definia, mas sim sua capacidade de reagir com astúcia às mais difíceis situações.
Lutara ao lado dos Chechenos contra a Rússia e contra as Farc na Colômbia e nestes dois locais o chamavam de o Maestro, tendo em vista suas notáveis habilidades individuais e de comando em batalha.
A antes de chegar a El-Aaiún treinou com Vitor Belfort no Brasil e sentia apto ao desafio que entraria em instantes naquele bar. A ansiedade transparecia por cada poro de seu corpo e ele sabia disso. O japonês a sua frente parecia entediado e preocupado com isso, mas Dennis não conseguia evitar, aguardava o estranho, como o apelidou, com inquietude.
O japonês o intimidava e o fazia se sentir uma criança, não havia uma sombra de dúvida naquele rosto cansado, nem medo, nem angústia, nem nada que pudesse dizer o que havia no seu íntimo.
O maestro se sentiu um aprendiz.

Principados e Potestades
Sua entrada naquele bar em nada surpreendeu a ninguém, era sujo e pulguento o suficiente para receber a todos que quisessem, ainda há vagas!
Após um momento de hesitação. Girou imperceptivelmente sua mão no sentido horário. A visão abriu para um mundo existente por trás do fisicamente visível.
A visão espiritual era ainda mais terrível do que a física. A madeira apodrecia e as paredes e o teto davam a impressão que cairiam a qualquer momento.
Demônios dos mais variados tamanhos e cores estavam grudados nos bêbados e prostitutas. Mordiam e mastigavam a carne dos pobres coitados, e em alguns casos havia pouco o que se tirar. As exceções eram os dois homens sentados no fundo do bar que mantinham uma luminosidade sobre si. A luz parecia afastar os pequenos seres, como um repelente.
Certificou-se de que nenhum daqueles seres estanhos poderia desafiá-lo, sentou-se.
No mesmo momento dois bêbados no bar levantaram-se falando impropérios ao estranho, cerrando os punhos e dirigindo-se na sua direção. Os demônios que os acompanhavam retiram-se e afastando-se sumiram na escuridão da sala.
Discretamente girou sua mão no sentido anti-horário, o que deu-lhes a visão de um gigante próximo ao estranho. Esse momento de hesitação foi suficiente para recebessem golpes sucessivos prostrando-os no chão quase sem vida.

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé
Yamamoto mudou rapidamente a cerviz, quando o estranho entrou, alternando entre aliviado e tenso em um misto de sensações que ele mesmo não entendia.
Antes que pudesse pensar qualquer coisa, reagiu em um movimento rápido, surpreendendo a todos, em três ou quatro passos, interceptou a mão de um dos bêbados, antes que atingisse o estranho. Quase ao mesmo tempo aplicou um golpe duríssimo nos rins, fígado e pescoço, derrubando o homem imediatamente. Olhou para o outro oponente e este já estava no chão, isso não o surpreendeu. A rigidez e o estado de atenção demoraram em desaparecer de seu rosto o que assustou a platéia que parecia se encolher em suas cadeiras.
Seria este seu último combate? Perguntou a si mesmo.
Olhou em volta, desafiando a todos e ao mesmo tempo observando qualquer sinal de ameaça.
Voltou seus olhos para o estanho que agora sorvia a água do copo sem pressa, como se soubesse que nada poderia lhe acontecer.
Sem entender como, toda raiva e violência sumiram do seu corpo e a tranquilidade teve sua vez em sua mente.